segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

das merrecas da vida.

Calor achado não é roubado - pelo menos eu acho. E eu pensando que dava pra esconder ele dentro de um fundo falso do colchão ou coisa assim, tipo dólar achado em maleta no aeroporto, pra um futuro uso quando ninguém desconfiar, sabe, pra momentos de necessidade.

Aí você deixa o que achou de lado pra poder inventar formas de guardá-lo e, quando se vira, já esfriou de novo. Não dá, mano, não dá.

Faz assim - deixa frio mesmo.

sábado, 19 de novembro de 2016

por isso odeiam o Mr. M.

Faz tempo que não escrevo aqui. Pelo menos, faz tempo que não tento escrever com a cara escancarada, exposta, para além de um personagem qualquer que eu tenha criado para tentar expressar qualquer angústia ou anseio egoísta que surgisse em mim, como sempre fazem sem pedir licença. Será que eu já fiz isso, aliás? Ora, esconder-se atrás de máscaras é confortável ao passo que expande sua possibilidade de ação sem que a consequência nos devore mais cedo ou mais tarde. É por isso que creio que todo mundo crie uma personalidade paralela à sua; uma que, fruto do próprio eu (há muito de você na sua máscara), é a versão polida de você mesmo. Uma versão que elimina por definição os medos, uma que cria condições para encarar o mundo, uma que venda o peixe mais facilmente do que você mesmo consegue fazê-lo. Uma marionete atrelada a linhas escondidas amarradas a um controle remoto, de onde se pode criar para você mesmo o roleplay que gostaria que fosse verdade, como crianças fazem quando sua imaginação permite brigar com dragões e salvar princesas e assassinar ladrões. 

Vi uma dessas palestras on-line recentemente que falava de uma moça recém-formada em seu doutorado. Ela contava a respeito do processo que, a muito custo, a levou a terminar seu doutoramento, associando ao discurso uma carga de encorajamento que deveria ser exposto em sentido "seja igual a mim, faça o que eu fiz, e você consegue o que quiser". Auto-ajuda, afinal. Que seja. O que importa nisso é que a moça em questão tinha problemas de ansiedade e medo no que dizia respeito ao seu doutoramento propriamente dito. E essa ansiedade lhe consumiu ao ponto de comunicar sua desistência junto a seu orientador que, depois de um momento de choque, a disse, dentre outras coisas, "fake it until you make it". Essas palavras, como diria o poeta, entraram no coração, e de um jeito muito forte, mais forte do que eu imaginava se possível. Ela passou por um processo de fingir que conseguia, se convenceu que tudo era uma atuação, e foi. E foi um sucesso. 

Ok, eu entendo que o poder do auto-convencimento sincero funcione; minha questão aqui é: por que funciona, e o por que deveria funcionar? Veja. A moça não era assim, ela tinha seus problemas. Ela continuou tendo depois desse processo e, enfim, fingiu ser quem não era em meio a esses dois momentos para mostrar para outras pessoas que era capaz. Agora, se ela fez isso, ela se tornou por um momento quem ela não era. Ela se mascarou, ergueu a cabeça e fingiu ser uma pessoa centrada, empoderada e forte. E ela não é (assumindo que ela ainda esteja viva). As pessoas fingem todos os dias? Aquilo que o amor diz ser possível não é nada mais que um ato, daqueles das peças de teatro?

Resumo isso à vida, a toda ela: é, de fato, um ato. Coloque sua melhor máscara para que seja empurrado ao palco. Sua melhor máscara pode te render o papel de árvore ou o papel principal... Desse ponto de vista, ninguém parece ser sincero, e isso é um erro, porque não devemos, segundo os doutores, todos eles, que me ensinaram a organizar meus pensamentos e a viver melhor um pouquinho, não devemos generalizar nada na vida. Lidar com as contingências é expandir a área de pensamento para que todas as coisas pensadas um dia, depois de tanto mexer na fórmula, sucumbam ao poder dela.

Ser honesto consigo mesmo e com os outros exige memória. E aquilo que dizem ser um bom coração, seja o que isso for. E muita, muita coragem - ah, isso sim... Mas valerá isso todo esse esforço? Ora, a máscara que se coloca é o melhor lado de si, e a arte já está contida no artesão. Ser modesto ou romântico ou depravado já está contido em si (ou na natureza humana, o que torna a coisa mais abstrata e absurda). E, convenhamos, tentamos nos melhorar porque essa é também a nossa natureza. Então, será a máscara uma necessidade existencial? Será ela uma característica que não pode ser dissociada? Abstrato demais, já. Sejamos objetivos: na prática, a grande luta não é não ter a máscara ou ser sincero. Na prática, o objetivo é, tanto tempo quanto possível, segurar a máscara com todas as forças, colá-la no rosto para que sua essência adentre a pele sem pudor ou resistência alguma. Imitar sua máscara até que você se torne de fato ela. Eis aqui o que eu entendi, sinceramente, do que a moça que se formou, que citei acima: "Fake it until you make it: you cannot possibly accomplish anything by showing every side of yours. Give them, whoever they are, selected drops of that complex and funny mass you despise which you call yourself. The less the better; they won't like you otherwise - see, they barely do already. One must be wise and dress up at closed doors; work on given costume but don't allow anybody backstage. Not even yourself. Then, and only then, they will buy first row tickets to see you dance; only then will they properly enjoy the show."

E, veja, eu não sei fazer isso direito.

quinta-feira, 31 de março de 2016

dos calores da vida.

Em um normal dia de verão o suprassumático desejo é refresco. A não ser que haja febre; nesse caso, tudo que se quer é um pouco de compaixão e um cobertor. Ainda que seja fato que o refresco é necessário - ora, o corpo sua, a boca seca - o desejo não é mais aquele. Haverá um dia de verão que alguma criatura afirmará sua necessidade pelo calor, pois o frio lhe consumirá. E essa criatura olhará para o horizonte sabendo que seu desejo naquele momento difere de todas as pessoas que não têm a febre que lhe fora acometida, e saberá que aqueles que a têm da mesma forma são seus aliados em certa medida. Ainda que não se trate de disposições imutáveis, a febre pinta o mundo do febril. E naquele percurso de tempo que a febre está presente a criatura já não é a mesma. Ela pensa diferente, sente e sente-se diferente, veste-se diferente e ama diferentes coisas e pessoas por diferentes motivos, e jamais será a mesma, como o mundo já não é o mesmo - como poderiam? 

Conforme a febre progride e a criatura se vê envolta e permeada por ela, outros sentem a anomalia e o resultado dela no corpo febril, vêem seus fenômenos. A compaixão daqueles que desejam aniquilar a febre da criatura para que possa voltar a sentir calor como todos nós procede como o tentar fazer com que um louco desenlouqueça. Ainda que sejam prejudiciais, a loucura e a febre são novos métodos de ver o mundo. Ainda que em níveis de influência diferentes, também o são a dor excruciante, a paixão avassaladora ou um mero café que falta, dentre muitos outros modos de viver. São análogas, todas essas nuances da vida: o febril quer se aquecer; o que sente a dor quer não mais a sentir, ainda que pregasse a primazia da grande multitude de sentimentos; o rejeitado apaixonado quer o objeto que lhe causa tanto conforto ao ponto em que a sua vontade se prova o inferno; o viciado quer o café e cria hipotética situação na qual sem a droga é impossível funcionar, e por isso não funciona. O febril é doente como todos os outros: ele quer outra coisa que difere de nós, não febris. O febril quer o calor, ainda que aquilo lhe faça mal. Em teoria, a doença difere-se do prazer; mas a que ponto o morrer de tanto se aquecer é o oposto do prazer? Aquilo é o prazer, o diferente é o gozo.

Se todos nós fôssemos doentes, aquele que vivesse mais se tornaria a anomalia... apenas para afirmar que a construção de mundo não é uma constante, mas uma grande explosão de subjetividades concatenadas e relacionadas entre si - de número e possibilidades imensos, ainda que limitadas por natureza -, oriundas da vida, constantes ou não, da qual se participa. O febril vê o mundo como um lugar frio, e se ele vivesse sua vida toda nesse estado, não usaria sungas. Nem as faria. Nem exporia seu corpo pela necessidade de cobri-lo. 

Eis que talvez surjam dez gerações de febris: todos os refrescos seriam abolidos. Nenhuma tendência veranil será permitida ou cortejada. Na décima primeira, ainda que os febris desaparecessem, o verão ainda seria desprezado por inúmeras gerações conseguintes. O mundo já não cultiva o verão, mas por hábito. Os pêlos crescem, os corpos mudarão. Os febris deixarão como legado a nova vida, composta de outras, sim, mas sua própria construção delas.

A vida que se sente de acordo com as conformidades temporais diferem de qualquer outra. Aquele que necessita de calor sofrerá caso esse lhe seja negado. Mas ao curar-se passará pela provação e repousará num estado em que  febre não lhe consumirá, e o prazer do não sentir nada será o novo parâmetro, será melhor, menos eufórico, mais normal. 

Assim como todos os outros exemplares, a febre que consome deve ser combatida - certo?